Weby shortcut 1a5a9004da81162f034eff2fc7a06c396dfddb022021fd13958735cc25a4882f

Dossiê Temático "Por uma produção de Ciência Negra: experiências nos currículos de Química, Física, Matemática, Biologia e Tecnologias"

Atualizado em 19/07/17 22:14.

Prezadas/os Leitoras/es,

Com muita satisfação, apresentamos o mais novo número da Revista da ABPN, Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as, que pauta suas produções pela qualidade das publicações. Neste número mantemo-nos fiéis ao enfoque que caracteriza a Revista, qual seja, a promoção dos Direitos Humanos da população negra na América Latina e Caribe. Os textos aqui apresentados nesta vigésima segunda edição contemplam as áreas de história, educação, literatura, química e artes em suas diferentes abordagens e múltiplas inter-relações. E é composta pelo Dossiê Temático “Por uma produção de ciência negra: experiências nos currículos de Química, Física, Matemática, Biologia e Tecnologias”, além de nove artigos livres.

Agradecemos aos/às colaboradores/as por possibilitarem a publicação deste número e por tornarem fatível sua continuidade. Neste sentido, nossa gratidão aos/às pareceristas, autores/as, tradutores/as, editores/as, Conselho Editorial, Conselho Consultivo, Diretoria e demais membros da equipe e parcerias. Agradecemos também a cada pesquisador/a que, direta ou indiretamente, investiu energia laboral para que nós mantivéssemos o periódico no ar, mesmo após sistemáticos ataques no universo web. 
A partir da consideração de todos esses esforços, convidamos as leitoras e os leitores a navegarem conosco nesse fervilhar de ideias que foram materializas nos manuscritos que compõem este número. Convidamos também a fortalecer as frentes de luta contra o racismo e contra todas as formas de preconceito e práticas de discriminação.

Modupé!

Comitê Editorial 
Nicea Quintino Amauro (UFU) 
Luciana de Oliveira Dias (UFG)
Paulo Vinicius Baptista da Silva (UFPR)

 

POR UMA PRODUÇÃO DE CIÊNCIA NEGRA: EXPERIÊNCIAS NOS CURRÍCULOS DE QUÍMICA, FÍSICA, MATEMÁTICA, BIOLOGIA E TECNOLOGIAS

 

Um marco para a introdução da educação para as relações étnico-raciais no Brasil, importante vitória do Movimento Social Negro, é a Lei 10639/2003, que tornou obrigatória, para todos os estabelecimentos de ensino, a inclusão da História e Cultura Africana e Afro-brasileira como tema nos componentes curriculares. Após a sua promulgação alguns desdobramentos se sucederam e estes contribuíram para ampliar o espectro de implementação da mesma. O primeiro deles foi o parecer do Conselho Nacional de Educação que propôs que as contribuições vindas do Egito e das universidades de Timbukto, Gao e Djene, por exemplo, poderiam ser discutidas em sala de aula, o que colaboraria na desmistificação de que o Continente africano não fosse também o berço da Ciência e da Tecnologia.

O Brasil recebeu milhões de homens e mulheres de diferentes grupos étnicos, que o racismo a brasileira classifica unicamente como africanos/as omitindo o berço de origem destas pessoas. Homens e mulheres monjolos/as, caçanjes, libolos/as, congos/as (cambindas), vilis, tios/as, ambundos/as, moçambiques, ijexás, egbás, lubas  e ketos, para cá foram trazidos e contribuíram com muito mais do que sua força de trabalho. Trouxeram saberes e conhecimentos que impactaram e continuam a impactar o nosso desenvolvimento.

Em África a tecnologia também se fez e faz presente. Os povos iorubanos, por exemplo, trouxeram consigo, além da experiência em metalurgia, o mito de Ogum, que sintetiza a habilidade técnica de milhares de ferreiros, homens que por trabalharem com a transformação de elementos da natureza, ocupavam uma posição entre o humano e o sobrenatural e que apresentavam profunda influência na sociedade da época.

As Ciências Exatas e suas Tecnologias compreendem diferentes áreas do conhecimento as quais agregam, por exemplo, a medicina, biologia, matemática, física, química e as engenharias, e nelas encontramos mentes e mãos de homens e de mulheres negras que colaboraram, por meio de seus estudos, pesquisas, inventos para avanços científicos/econômicos/ambientais em diferentes partes do mundo.

Por sua vez, a área de Ciências Exatas e Tecnologias da ABPN vêm se estabelecendo e tem com uma de suas metas visibilizar esforços desenvolvidos por esses/as pesquisadores/as, mestres, Griôs e professores/as que promoveram um valioso conhecimento para a humanidade. Nós homens e mulheres que atuamos com Ciências Exatas e Tecnologias nos encontramos aptos/as e prontos/as a contribuir nos debates e ações voltados para a inclusão desta temática, seja em cursos de formação, seja por  meio do desenvolvimento de projetos de pesquisa e extensão os quais coloquem a população negra, diaspórica ou africana, como protagonista da ciência, saberes e conhecimentos.

Desta forma, procuramos neste dossiê afirmar nossa posição como protagonistas históricos na produção do conhecimento humano, aqui cientifico e tecnológico, nas incontáveis contribuições contemporâneas e na nossa incessante permanência nos espaços “duros” de fazer científico que preterem nossa presença e perspicácias negras.

O artigo de Claudio Fernando Andre, Jorge Costa Silva Filho e Ricardo Costa Santos intitulado A Afro-Etnomatemática Como Fomentadora De Transformação  Social propõe ampliar as possibilidades didáticas que possam fortalecer processos colaborativos de ensino e aprendizagem, por meio, da formação de professores-autores  e alunos-autores que possam atuar com propostas de afro-etnomatemática, apoiadas por recursos das tecnologias da informação e comunicação.

Zuleika Stefânia Sabino Roque e Cléber Santos Vieira compartilham a experiência de implementação da Lei 10639 no Instituto de Ciência e Tecnologia da Universidade Federal de São Paulo, através da oferta da Unidade  Curricular denominada  Relações  Étnico-Raciais  e  Cultura  Afro-brasileira  em  sua  contribuição intitulada A Introdução Dos Estudos Sobre As Relações Étnico-Raciais E Cultura Afro- Brasileira No ICT Unifesp.

Já o texto de Rosiléia da Silva Santana, Luiz Márcio Santos Faria e Fernanda Rebelo-Pinto intitulado A Lei 11.645/08 E O Modelo Epistemológico Dominante: Em Busca De Ecologias Para A Cosmogonia Iorubá No Ensino toma como referência resultados da pesquisa: “Orisun Ati Awọn Ayie Ati Awọn Ọkurin: a Cosmogonia Iorubá como uma proposta didática para a explicação da Origem do Mundo e do Homem no Ensino de História do 6º Ano”. Neste texto fazem uma discussão alicerçada nas Teorias Antropológicas do Didático, propondo buscar espaços, vivências e funcionalidades para saberes oriundos das populações africanas e afro-brasileiras e construir praxeologias históricas.

Morgana A. Bastos, Nicea Q. Amauro e Anna M. Canavarro Benite em A Química do Café e a Lei 10.639/03: uma atividade prática de Extração da Cafeína a partir de Produtos Naturais versam sobre construção sócio–histórica do Brasil durante  o Ciclo do Café e o estudo da Extração da Cafeína de produtos naturais, numa proposta de implementação da lei 10.639/03 no Ensino de Química.

O ensaio reflexivo intitulado Afetividade, cultura e aprendizagem: uma reflexão etnomatemática é fruto da tese de doutoramento de Vanisio  Luiz  da Silva que buscou debater o alcance dos tópicos: básicas de aprendizagem; atenção na aprendizagem e ambiente adequado à aprendizagem, o texto diz respeito de uma Educação Matemática Para Todos (EMPT) em confluência com a africanidade brasileira, que se expressa nas determinações da Lei 10.639/03, na resolução MEC 01/2004, assim como as transformações dos atos e ações pedagógicos escolares.

No contexto da descolonização dos currículos e a partir da temática Química Ambiental Antônio C. B. Alvino e Anna M. Canavarro Benite acresentam aqui uma proposta de implementação da lei 10639/03, a partir do diálogo com história e cultura africana e afro-brasileira em aula de Química e discutem a respeito da religiosidade de matriz africana e o mito do combustível limpo.

Arquitetura e arte africana são desveladas por Henrique Cunha Junior em seu artigo Afroetnomatemática: Da Filosofia Africana Ao Ensino De Matemática Pela Arte. Tomando a filosofias africanas o autor propôe explicar e entender as abstrações e representações realizadas nas artes, arquitetura e urbanismo pelos povos africanos. Este artigo  discute  a  relação  entre  as  filosofias  africanas  e  as  formas  apresentadas    na arquitetura e na arte e tem a finalidade introdutória destas formas de trabalho para o ensino da matemática em bairros negros, ou seja, localidades de maioria de população negra.

Preocupada com as práticas culturais afrodiaspóricas dos penteados afros Luane Bento dos Santos em Conhecimentos Etnomatemáticos Produzidos Por Mulheres Negras Trançadeiras aborda os conhecimentos etnomatemáticos utilizados na preparação dos penteados “afros”. Este trabalho lida com o cotidiano profissional de mulheres negras trançadeiras e está impregnado de saberes e fazeres matemáticos e que estas formas de conhecimento são invisíveis na sociedade brasileira numa ressignificação do lugar de produção de conhecimentos africanos em campos tecnológicos e matemáticos.

José Antonio Novaes da Silva nos traz em seu artigo Conquista De Direitos, Ensino De Ciências/Biologia E A Prática Da Sangria Entre Os/As Remetu-Kemi E Povos Da Região Congo/Angola: Uma Proposta De Articulação Para A Sala De Aula   a Biologia como uma da áreas do conhecimento que pode e dever contribuir com o debate da educação voltada às relações raciais Esta produção apresenta o Egito Antigo (Ta-netjeru), bem como a prática médica exercida pelos/as remetu-kemi - em especial,  as sangrias (íth) - por meio de uma ação interdisciplinar envolvendo a Biologia e a História.

Em Desconstruindo Elementos De Um Modelo Epistemológico Dominante No Ensino De Matemática: Em Busca De Um Modelo De Referencia Fundamentado Nas Contribuições Das Populações Diaspóricas E Na Lei 10639/2003, Getúlio Rocha Silva, Luiz Márcio Santos Farias e Rita Cinéia Meneses Silva nos brindam com uma discussão sobre cálculo mental no primeiro e segundo ciclos do Ensino Fundamental como estratégia matemática fortemente influenciada pela tradição africana.

Tangenciando o extermínio da população negra brasileira, Elbert Reis Borges  e Bárbara Carine Soares Pinheiro em Educação Química E Direitos Humanos: O Átomo E O Genocídio Do Povo Negro, Ambos Invisíveis? relatam um processo de ensino dos conceitos referentes aos modelos atômicos a partir da Pedagogia Histórico-Crítica, pautando o debate da invisibilidade atômica por meio da prática social da invisibilidade do povo negro na sociedade brasileira.

As desigualdades raciais que marcam a sociedade brasileira afetam as constituições   das   comunidades   científicas.   Em   Físicos   Negros:   Promovendo  A Diversidade Por Meio De Associações, Marcio Roberto da Silva Oliveira discute a atuação das associações de físicos negros no Brasil e no mundo como uma estratégia eficaz para o enfrentamento das desigualdades raciais e racismo nas áreas das Ciências.

O Programa Etnomatemática E O Ensino Da Geometria: Dialogando Sobre A Prática Pedagógica, contribuição de Cristiane Coppe apresenta possibilidades para o processo de ensino e de aprendizagem da geometria e outros conteúdos em matemática, evidenciando os elementos da postura criativa, da nova aliança interdisciplinar e do entendimento do estudante, enquanto sujeito holístico, específicos de uma Educação Etnomatemática, descolonizando o currículo de Matemática e ampliando olhares para diversas culturas.

Gustavo Henrique Araújo Forde em O que Professores Calam e Dizem sobre  a Presença Africana no Ensino de Matemática? analisa os sentidos e significados explícitos e implícitos acerca do lugar que a África ocupa na visão de professores de matemática que atuam em uma rede pública de ensino fundamental. A análise partiu do pressuposto de que na escola dialoga-se desde a infância sobre o que é “ser” negro, branco ou mestiço, a partir de interlocutores eurocêntricos, tais como o currículo  escolar, o material didático e as práticas curriculares que (re)produzem a ideologia da branquitude.

A mineração no estado de Goiás é apresentada como elemento da diáspora deste estado em Ouro, Níquel, Congo E A Diáspora Africana Em Goiás: A Lei 10639 No Ensino De Química por Juvan Pereira da Silva e Anna M. Canavarro Benite. Este artigo apresenta os legados culturais e científicos deixados pelos/as e negros/as que tiveram a sua mão de obra especializada e escravizada nos garimpos de ouro quando do surgimento do atual estado de Goiás e em particular a cidade de Niquelândia. Esses/as negros/as quando chegam aqui, como em toda a diáspora, reinventam um novo mundo, criam uma identidade partilhada a todos os membros da comunidade, definindo, aprofundando, e fortalecendo seus vínculos uns com os outros e com sua ancestralidade. Por fim em Uni, duni, tê, um Currículo colorê, escolhido por você: um ensaio sobre experiências da Educação Básica, inspiradas no Programa Etnomatemática, Olenêva Sanches Souza apresenta alguns aspectos que se envolveram no pôr em pauta a relação entre epistemologia do conhecimento e questões sociorraciais, impulsionadas pelo saber-fazer a Transdisciplinaridade, sob orientação teórica do Programa Etnomatemática.

O conjunto de constructos aqui apresentados objetiva questionar os currículos homogeneizantes e combater o epistemícidio praticado por estes. Desejamos a td@s uma ótima leitura.

 

Fonte: BENITE, Anna M. Canavarro; AMAURO, Nicéa Quintino. POR UMA PRODUÇÃO DE CIÊNCIA NEGRA: EXPERIÊNCIAS NOS CURRÍCULOS DE QUÍMICA, FÍSICA, MATEMÁTICA, BIOLOGIA E TECNOLOGIAS. Revista da Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as (ABPN), [S.l.], v. 9, n. 22, p. 03-08, jun. 2017. ISSN 2177-2770. Disponível em: <http://abpnrevista.org.br/revista/index.php/revistaabpn1/article/view/392>.

 

 

Algumas publicações

 

ALVINO, Antônio C. B.; BENITE, Anna M. Canavarro. AFRICANIDADES EM ENSINO DE QUÍMICA: UMA EXPERIÊNCIA NO CONTEXTO DA PRODUÇÃO DE BIOCOMBUSTÍVEIS E AQUECIMENTO GLOBAL. Revista da Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as (ABPN), [S.l.], v. 9, n. 22, p. 84-106, jun. 2017.

Link do artigo: http://abpnrevista.org.br/revista/index.php/revistaabpn1/article/view/397

SILVA, Juvan Pereira da; BENITE, Anna M. Canavarro. OURO, NÍQUEL, CONGOS E A DIÁSPORA AFRICANA EM GOIÁS: A LEI 10639 NO ENSINO DE QUÍMICA. Revista da Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as (ABPN), [S.l.], v. 9, n. 22, p. 273-302, jun. 2017.

Link do artigo: http://abpnrevista.org.br/revista/index.php/revistaabpn1/article/view/408

BASTOS, Morgana Abranches; AMAURO, Nicéa Quitino; BENITE, Anna M. Canavarro. A QUÍMICA DO CAFÉ E A LEI 10.639/03: UMA ATIVIDADE PRÁTICA DE EXTRAÇÃO DA CAFEÍNA A PARTIR DE PRODUTOS NATURAIS.Revista da Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as (ABPN), [S.l.], v. 9, n. 22, p. 312-331, jun. 2017.

Link do artigo: http://abpnrevista.org.br/revista/index.php/revistaabpn1/article/view/410

Listar Todas Voltar